AUDAX 200Km - Campos| 20/10/2007 Campos do Jordão – sábado pela manhã. Acho que valem alguns comentários para quem ainda não conhece um pouco da história do Audax antes de descrever uma situação específica.... O Audax é um evento ciclístico, não uma prova de ciclismo. Sua primeira edição ocorreu na França, saindo de Paris , indo até Brest e retornando a Paris, totalizando 1.200 kms. Em 1901 ! É o evento ciclístico mais antigo que se tem noticias e, atualmente, para participar deste evento o ciclista precisa completar 200, 300, 400 e 600 kms no período de 1 ano. O espírito é totalmente amador, sem preocupações de chegar em primeiro ou último, até porque não existe classificação final. Existem cerca de 120 representantes do Club Audax Paris no mundo, sendo que no Brasil somos 4 amigos nomeados representantes. Temos 5 “filhotes” : Porto Alegre, Lajeado, Curitiba, Rio e Brasília. Eles organizam as provas e nos avisam para que possamos homologar os resultados na França. Levamos em consideração itens como qualidade das estradas, grau de dificuldade do trajeto, postos de abastecimento, movimento da estrada, datas sem feriados e, principalmente a variedade da paisagem. Escolhemos Campos do Jordão também pelo desafio de encarar uma serra de 24 kms no inicio da etapa, 10 kms depois do começo do evento. A largada, perto de Taubaté, está a cerca de 750 mts de altitude e o portal da entrada de Campos trás a informação de 1640 mts. São 900 mts de inclinação em 24 kms de subida. E, para aumentar o desafio e a brutalidade da força, resolvemos fazer os primeiros 8 kms de subida pela serra nova, saindo para São Bento do Sapucaí ( numa subida terrível para sair desta serra e pegar o caminho para ao outra), com algumas descidas nesta estrada para enganar o corpo e a cabeça. Depois de uns 6 kms terminamos a interligação entre as serras e alcançamos a serra velha, menos íngreme porém bem mais longa. Confesso que a batalha para vencer o primeiro trecho da serra foi bastante difícil, um pouco mais do que havia imaginado, mas consegui vencer esta etapa dentro de um tempo previsto inicialmente. Na estrada de interligação o ipod emprestado de um amigo caiu no chão (já havia ficado pendurado pelo fio outras vezes) e tive que parar e voltar. Neste momento alguns ciclistas que vinham atrás me alcançaram e fomos pedalando juntos. Dúvida no trajeto : paramos para conferir o mapa e nosso colaborador que faz os mapas nos alcança e nos mostra o caminho a seguir. Pequenas subidas e descidas, muitas curvas, algumas crianças brincando nas chácaras acenando, cachorros latindo e ao ar de incredulidade das pessoas em geral marcam a paisagem de montanhas, morros, sítios e muitas arvores do caminho. Chegamos finalmente à tão famosa serra velha. Pista única, asfalto gasto, pouco transito de carros quase tão lentos quanto nós, apesar de muito fumacentos...e muitas árvores no caminho, formando uma agradável sombra no trajeto todo. O sol já nos castigava muito, o calor e a falta de umidade ajudavam a minar a nossa resistência física e começava a abalar o moral. Começou nesta hora a guerra psicológica interna : pernas cansadas depois de mais de 2 horas de subida forte, um pouco de fome, ingestão de suplementos de carbohidratos e proteínas, gatorade e gira a perna, que insiste em querer parar. Não parar já é, a esta altura do pedal, uma grande vitória. Por outro lado, pedalar tão vagarosamente nos dá a sensação de que a tarefa nunca mais vai acabar. Mas não desistimos, queremos sangue, vamos subindo e tentando nos animar sempre. O cara ao meu lado me informa que acabou de voltar da ultramaratona de MontBlanc, na Suiça. Foram 163 kms de corrida percorridos em 43 horas. Se você juntar todas as subidas em linha reta e puser a 90 graus do solo ele subiu 9 kms... e teve uma descida de 19 kms de comprimento, excelente para acabar com seus joelhos. Foi o 3º brasileiro a completar a prova. Sinto uma felicidade imensa em participar deste mundo do esporte, que me dá a oportunidade de estar ao lado de pessoas como o Tani, este verdadeiro herói solitário. Um exemplo de dedicação e perseverança a ser seguido. Quem é do esporte sabe o que ele realizou. E subimos , subimos, subimos, subimos e nunca vai acabar. Penso ferozmente em parar e descansar. Mas lembro que se parar ali, no meio do nada, vai ser muito difícil retomar. E continuo a pedalar e pedalar e a querer chegar lá em cima. Ainda bem que descobri no ipod uma pasta do Paralamas com 17 músicas. Adoro os caras, desde que eles lançaram Vital e sua moto. Fui a alguns shows deles e a energia que irradiaram foi fantástica. Lembro disso e renovo as minhas energias, pedalando e pedalando montanha acima. Nova recaída e a guerra psicológica assumem a dianteira sobre a guerra física. Dizem que os músculos se acostumam, mas a cabeça está sempre querendo te derrubar. Vamos em frente até que avisto logo após uma curva o carro de apoio do Audax, com frutas, sanduíches, gatorade e a cara da minha mãe ajudando o Denis com a tarefa de pegar tempos, apoiar os ciclistas e se divertir como ainda não havia visto acontecer. Paro e ela me pergunta se havia já dado o nome. Minha mãe não me reconheceu e conclui que a cara não deveria estar das melhores. Posso dar um desconto por estar de capacete e óculos escuros... Parcialmente restabelecido do esforço retomo minha luta para terminar a subida. Já haviam sido 2hs e 43 min de pura força, física e mental. A guerra já estava no final, mas as piores batalhas ainda viriam, estava me achando preparado para elas. Subida, subida, subida e mais subida. Vamos em frente e prá cima. Pequenas retas, muitas curvas, com ainda menos transito e movimento de pessoas. O que nos deixa mais concentrados na subida. Olho para o alto e fico imaginando o quanto ainda faltaria para terminar a subida pois quanto mais eu olho mais eu vejo morros altos. O desanimo começa a tomar conta de mim, mas ainda resisto, ainda me disponho a pedalar um pouco mais, sem parar apesar da baixa produtividade. O ipod tenta me ajudar, olho procurando alguma musica conhecida e descubro Marisa Monte. Não é muito animada, mas é conhecida. Beija eu, Comida, negro gato, outras que não conheço mas acabo gostando continuo subindo. Mais uma curva com outra subida seguida de uma reta com subida. Não agüento mais, vou parar. “Bless, you is my woman know” começa a tocar. Lembro de ter ouvido um pedaço desta musica num musical chamado Porgy and Bess na voz da Ella Fitzgerald. Continuo insistindo e tentando girar as pernas, empurra e puxa o pedal, sem parar, querendo desistir. Nem lembro mais das subidas e retas em subida. A música está acabando mas as subidas ainda não. Volto a musica no ipod e inisito em não parar. Vejo outro ciclista na minha frente, uns 500 metros na minha frente e vamos mais um pouco. Um novo animo apareceu quando alcancei meu amigo Roberto e disse a que ele deveria ter fé e acreditar que estava acabando. De repente percebo que a música acabava novamente. Mas, inacreditavelmente, as subidas também. Outros 2 ciclistas estavam no topo da subida e reunimos o grupo de 4 em direção ao PC1, no centro de Campos. Lembrei de agradecer muito o apoio que recebi e gritar bem alto um sonoro palavrão seguido da frase “acabou a subida”. Gritei de felicidade por ter terminado o que me propus : subir a serra, vencer este desafio. Ainda encontramos pernas prá aproveitar uma descida, que por mais mísera que possa ser, depois de tudo o que subimos era quase uma queda livre. Logo na entrada da cidade paramos para ajudar o Marcos Vinicius que teve um furo na câmera por ter passado num buraco. Cheguei ao PC depois de 3hs e 23min, muito, muito, muito feliz e agradecido por ter completado. Breve descanso, mais alguns ciclistas chegando, outros saindo e vários turistas passeando pela praça tentando entender o que acontecia naquele lugar. Uma reunião de ciclistas com roupas coloridas, com cara de acabados mas com a alma lavada por terem terminado a pior das batalhas do dia. Saí com o Walter e o Elvio para a descida da montanha, com o objetivo de não usar o freio. Adrenalina pura ! Pedalamos até o início da descida, com eles indo um pouco na minha frente e eu tentando aproveitar a paisagem. Só depois que cheguei percebi que ao encostar a bicicleta numa mureta desloquei o freio traseiro e a sapata, que encostaram na roda dificultando a rodagem da mesma. A roda estava presa e achava que aas pernas não conseguiam mais trabalhar. Serra abaixo, sem movimento de carros, certa tensão no ar. Vento na cara e um silêncio profundo. Desisti de ouvir o ipod na descida para me concentrar somente nela. O vento não me deixava embalar, passei por uma placa de velocidade indicando 60km/h e descobri que o guarda me multaria por ter passado a 64 km/h... Ao final da serra ainda tinha mais 10 kms até o PC Castelão. Fui pedalando sem pensar em nada, curtindo novamente a paisagem e algumas músicas agradáveis. Faltando poucos metros para terminar o Richard me ultrapassou e entrou no posto na minha frente, pedalando fora do banco de maneira invejável. Sujeito forte esse Richard. Obrigado pelas dicas, apoios e exemplos. Desce da bike, alonga com a Marcella (professora de yoga que nos ajudou com TODOS os ciclistas de maneira maravilhosa, sempre feliz e atenciosa), vai ao banheiro, abastece as garrafas, troca a camiseta por uma seca e sem mangas pois fazia 34º C e vamos à luta. Alguém viu meu capacete ? estava aqui, ao lado do óculos e do ipod... Procura, procura, procura, ninguém sabe, ninguém viu ! Desisto de continuar e pensão que deve ter sido um aviso da turma de plantão lá de cima. Vou ajudar na organização da prova. No final do dia aparece um amigo, resolve arrumar suas coisas e começa a mexer daqui, sacola prá lá, capacete no chão e outro na mão. Pergunto de quem era o capacete na mão dele : é meu, claro... e aquele ali no chão... olha, olha de novo, não entende nada e me pergunta : por que você não foi pros 200 ? Incrédulo, respondo : porque você foi com o meu capacete e não ia pedalar sem ele de jeito nenhum ! Ele, sem acreditar, olha com uma cara de quem não sabe o que dizer e, mesmo assim, arrisca : cara não me diga... digo, digo sim. Mas fica tranqüilo que está tudo bem. E em dezembro, dia 01, se tudo correr bem, vou de Ubatuba a Paraty e volto. Com o meu capacete.
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